Bairros do Recife: São José e Santo Antônio

Os primeiros passos da colonização de Pernambuco se deram em Olinda; o português Duarte Coelho, primeiro donatário de Pernambuco, pretendeu recriar nas colinas de Olinda um ambiente semelhante ao de Lisboa; Recife era então apenas um dos portos por onde escoava a produção de açúcar rumo à Europa.

A expansão em direção às terras baixas deu-se principalmente por obra dos holandeses que, por mais de vinte anos, dominaram Pernambuco; os invasores pretendiam também recriar os ares de uma cidade européia, Nova Amsterdam, e para isso ocuparam inicialmente o espaço tomado por uma ilha situada na entrada do Capiberibe (ver foto abaixo).

Essa etapa na ocupação do território marcou profundamente o crescimento da cidade, e compreende um período de afirmação do Recife como município. Qualquer pessoa interessada na formação histórica e cultural do Recife, Olinda, Pernambuco e mesmo do Brasil deve obrigatoriamente fazer um passeio pelo centro antigo do Recife.

ilha-recife

A primeira grande construção ocorrida naquela ilha, antes ainda do domínio holandês, foi o Convento Franciscano de Santo Antônio, concluído por volta de 1606. A primeira denominação dada à  ilha foi Ilha dos Navios; mais tarde, passou a ser chamada de Ilha de Antônio Vaz, até virar, em 1789, a Freguesia do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio. Nascia ali o bairro de Santo Antônio.

No início do século XIX, a freguesia havia atingido tal extensão e população que foi subdivida, sendo criada então a Freguesia de São José. O território e a identidade desses dois bairros continuam até hoje tão entrelaçados que é difícil encontrar quem saiba onde começa um e termina o outro. Assim, os dois bairros, como irmão mais velho e mais novo, são hoje o coração do Recife.

Há doze anos, Fred Salim é o Gerente Operacional de Planejamento, Produção e Programação Cultural do Pátio de São Pedro, e contará um pouco mais sobre os bairros. Fred mudou-se para São José há quatro anos e conta que, muitas vezes, vai para o trabalho a pé, o que lhe permite conhecer cada vez melhor a região.

Começamos o passeio pelo própro Pátio de São Pedro. Apresentações musicais movimentam as noites daqui, fazendo do espaço um importante pólo de movimentação cultural. A Terça Negra, o Sábado Mangue, e o Dançando no Pátio trazem milhares de pessoas para cá, onde encontram bares e restaurantes, além de música de qualidade.

Passamos pela Igreja de São Pedro, que ocupa posição majestosa no pátio. Seguindo pela direita da igreja encontramos um intenso e variado comércio de roupas, muitas vindas de pólos de confecção do estado, como Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Fred avisa que, na época do natal, a rua fica lotada de pessoas em busca de presentes, ou de uma roupa nova e especial para a data.

Chegamos a Igreja Terço, que também tem um pátio com seu nome. Aqui encontramos um importante ponto de cultura e religiosidade afro: a Casa de Badia. No Pátio do Terço é realizada, toda segunda-feira de carnaval, a poética Noite dos Tambores Silenciosos.

Entramos no Forte das Cinco Pontas. Construída pelos holandeses, a fortaleza já foi importante na defesa do território contra invasões inimigas. Hoje, a construção em formato de estrela defende a história e a cultura da cidade, em uma exposição permanente que conta toda a história da cidade, com mapas, documentos e objetos de diferentes épocas da vida do Recife.

Do forte para a Rua das Calçadas que, como quase todas as ruas da vizinhança, fica repleta de lojas e gente durante o horário comercial. Sobre a variedade do comércio encontrada no bairro, Fred resume: “aqui no centro você encontra tudo o que quiser”.

Em seguida, visitamos a Igreja de Santa Rita, construída em 1784 e reconstruída, por causa de problemas estruturais, em 1870.

No cais de Santa Rita encontramos o terminal de ônibus urbanos, entroncamento de dezenas de linhas vindas de todas as partes da região metropolitana. O frenético movimento de passageiros, ônibus e vendedores ambulantes não pára nem de madrugada, quando praticamente todas as linhas passam a fazer terminal aqui e a sair de hora em hora. Conhecidos como “bacuraus” – ave de hábito noturno – estes ônibus formam uma fila enorme nos dois corredores do terminal.

Continuamos nossa caminhada pela Rua Padre Floriano, onde ficava a primeira sede do Galo da Madrugada, maior bloco de carnaval do mundo. A casa que abrigou este patrimônio cultural já não existe mais: foi demolida para a construção do depósito de uma grande rede de armazéns de construção. A atual sede do Galo fica na Praça Sérgio Loreto, final da Rua da Concórdia, que hoje concentra grande número de lojas de instrumentos e equipamentos musicais e eletrônicos.

Muitos outros importantes blocos e agremiações carnavalescas nasceram nos bairros de Santo Antônio e São José, como o Clube Vassourinhas, Batutas de São José, Pierrôs de São José, Prato Misterioso e tantos outros que festejaram e festejam a irreverência, a alegria e a arte do carnaval pernambucano.

Caminhando por ruas sempre cheias de gente, paramos em frente ao Mercado de São José. A praça do mercado recentemente foi reformada e requalificada, proporcionando a visitantes e comerciantes mais conforto e beleza. Também voltada para a praça, fica a Igreja da Penha e seu convento. Entramos no mercado e passeamos em meio a seus corredores repletos de artesanatos, produtos religiosos, carnes e peixes, roupas e calçados, bancas de alimentos e de ervas medicinais, e muito mais.

Rumamos para o Largo do Livramento, que dispõe de bancos de madeira, muitas lojas e amplo espaço. Mais ao norte, alcançamos a Praça 17, onde um homem trabalha peças de madeira até transformá-las em tabuleiros para jogos.

Seguimos pela Rua Imperador Dom Pedro II, passando por prédios importantes como o Arquivo Público, o Ministério Público, o Gabinete Português de Leitura e a Capela Dourada, certamente uma das mais belas igrejas do Recife (foto abaixo); anexo à Capela, encontra-se o Museu Franciscano de Arte Sacra, com extenso acervo aberto a visitação de turistas que vêm de diversos países do mundo se encantar com tanta história e beleza.

capela-dourada-recife

Se São José é hoje quase que inteiramente dedicado ao comércio popular, Santo Antônio ainda preserva um pouco da função conferida por Maurício de Nassau: a de abrigar prédios públicos.

Seguimos até encontrar uma praça tão grande que parece, à primeira vista, um parque. É a Praça da República, arborizada, espaçosa, bonita e importante. Aqui encontramos a sede do governo estadual e residência oficial do Governador do Estado de Pernambuco, o Palácio do Campo das Princesas; recentemente, o palácio abriu as portas para visitação pública, e os interessados podem conhecer seu interior.

Outras importantes construções rodeiam a praça: o Palácio da Justiça, o Liceu de Artes e Ofícios e o suntuoso Teatro de Santa Isabel, construído em 1850. Hoje o Santa Isabel é importante palco para músicos populares e clássicos, além de espetáculos de teatro e dança.

Deixamos a imponente Praça da República e seguimos em uma das mais importantes avenidas do Recife, a Dantas Barreto. Nela encontramos dezenas de terminais de ônibus vindos de todas as áreas da cidade, bancas de revista e fiteiros; um camelódromo concentra diversos comerciantes que antes atuavam como ambulantes e hoje oferecem diversos tipos de produtos e serviços, como roupas, produtos eletrônicos, tatuagens e consertos em geral.

Na Dantas Barreto localizam-se duas das mais importantes igrejas da cidade: a Igreja do Santíssimo Sacramento, Matriz de Santo Antônio, e a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, santa padroeira do Recife. Na Praça do Carmo, amplo espaço onde a vida do Recife pulsa diariamente, milhares de pessoas circulam; este é um dos corações da cidade. A cada julho, Nossa Senhora do Carmo é homenageada na festa que traz à praça parque de diversões, barracas de artigos religiosos e de alimentos.

Andando mais um pouco, chegamos a mais movimentada praça da cidade: a Praça da Independência, carinhosamente chamada de “Pracinha do Diario” pela população – no local, está o prédio da antiga sede do Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo do Brasil ainda em circulação (hoje, a sede está no bairro de Santo Amaro).

Na Avenida Guararapes, passamos por onde ficava localizado o Bar Savoy, que fechou as portas, mas continua presente no imaginário da cidade, e pela central da Empresa de Correios e Telégrafos, ECT. Por trás dos correios, os aficionados por livros encontram diversos sebos. No pé da ponte Duarte Coelho, que no carnaval é interditada para a montagem do tradicional galo gigante do Galo da Madrugada e liga a Guararapes a Avenida Conde da Boa Vista, encontramos a estátua de um dos maiores músicos pernambucanos: Capiba.

Nada menos que sete pontes ligam a vizinhança aos bairros do Recife Antigo e da Boa Vista. Os próprios bairros de Santo Antônio e São José funcionaram como uma “ponte” para o crescimento territorial do recife, e não há localidade na cidade que concentre tantas dessas construções como os bairros irmãos.

Pegamos a Rua do Sol e seguimos à beira do rio Capibaribe até avistar a Casa da Cultura, Construída originalmente para ser uma prisão, função que cumpriu até a década de 1970. Hoje, no entanto, a clausura deu lugar à arte, ao artesanato e à cultura. Além de mais de cem lojas de bordados, roupas, artesanato e alimentação, a Casa da Cultura abriga também sedes de diversas entidades culturais. No saguão central do prédio em forma de cruz, um belo poema e um painel de Cícero Dias lembram a história de Frei Caneca e da Revolução Praieira.

Terminamos o passeio na estação Central do Metrô do Recife. Se da ilha que hoje abriga estes dois bairros irmãos a cidade se expandiu para virar a metrópole que é hoje, da Estação Central se irradia a população para os bairros da cidade que, apesar de gigantesca, continua em busca de novos territórios.

O passeio acima pode ser feito a pé, em algumas poucas horas, e com segurança. É sem dúvida excelente maneira de se conhecer um pouco da História do Recife.


2 Comentários on “Bairros do Recife: São José e Santo Antônio”

  1. […] em Recife e Pernambuco Dicas de viagem no Recife, Porto de Galinhas e Pernambuco « Bairros do Recife: São José e Santo Antônio Garçons do Recife se preparam para os turistas […]

  2. […] Veja também: Caminhada pelo Centro Histórico de Natal. Centro Histórico do Recife. […]


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